Cuidados adicionais para pacientes diabéticos.


 

1. Sabemos que a diabetes mellitus é uma das doenças mais prevalentes no mundo. Quais os cuidados adicionais que o cirurgião-dentista precisa ter ao tratar pacientes com essa condição? Embora o dentista precise conhecer a doença diabetes, é imprescindível que ele conheça primeiramente o seu paciente com diabetes: o tipo de diabetes que ele apresenta, o estágio em que a doença se encontra, identificar se ela está controlada ou não, quais órgãos alvo foram afetados pela doença e o valor da hemoglobina glicada do paciente (reflete a média da concentração de glicose no sangue nos últimos 3 meses). Desta forma ele saberá antecipar e manejar as possíveis complicações que esse paciente possa apresentar no decorrer das consultas odontológicas, tais como crises agudas de hipoglicemia e de hiperglicemias (cetoacidose), bem como prevenir e tratar alterações e doenças bucais que estejam direta ou indiretamente ligadas à diabetes. No momento da consulta, o dentista deve tomar conhecimento sobre a medicação que o paciente usou (no caso das insulinas, conhecer tempo de duração e o pico de sua ação), o horário que o paciente usou a medicação, e horário em que ele se alimentou. Além disso, ele deve aferir a glicemia capilar de ponta de dedo. Se o paciente estiver em hipoglicemia (glicemia menor que 70mg/dL de sangue) ou em risco eminente de apresentá-la (por exemplo, por não ter se alimentado bem e ter tomado insulina), o dentista deve instruir o paciente a se alimentar antes da consulta. Mesmo assim, é recomendável que ao atender pessoas com diabetes o dentista tenha à mão fonte de glicose de absorção rápida, caso o paciente experimente crise de hipoglicemia. Se o paciente estiver com glicemia acima de 250 mg/ dL, o dentista deverá observar se estão ocorrendo sinais de Cetoacidose Diabética (CAD) ou de Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH). Essas são as complicações mais sérias dos pacientes com diabetes. A cetoacidose diabética está associada, mais frequentemente, ao diabetes tipo 1 enquanto o EHH é mais comum em pacientes com diabetes tipo 2 e com mais de 65 anos. A cetoacidose caracteriza-se clinicamente por desidratação, respiração acidótica e alteração do sensório, grande mal estar, cansaço, há- lito cetônico, e laboratorialmente glicemia maior que Edição 18 | Junho 2015 250mg/dL . Uma vez detectada, o paciente deve ser encaminhado ao hospital. Se o paciente estiver com a glicemia maior que 250mg/dL, mas não estiver em cetoacidose, os procedimentos odontológicos, invasivos ou não, podem ser conduzidos. É muito importante que o dentista intervenha principalmente na remoção de infecção e dor, pois esses dois fatores são hiperglicemiantes e com eles o paciente dificilmente irá atingir o controle metabólico adequado.

 

2. Muitos pacientes podem não saber que têm diabetes, entretanto o dentista pode exercer um papel fundamental no diagnóstico da doença. Quais sinais clínicos da doença que o dentista deve sempre se atentar? Alguns sinais sugestivos de que o indivíduo tenha diabetes são as queixas que ele poderá relatar na anamneses, tais como: poliúria (urinar muito e durante a noite), polidispsia (beber muita água), polifagia (comer muito), e perda de peso, típicos da DM tipo 1 ou obesidade, dislipidemia, hipertensão, indicadores de diabetes tipo 2. Mas esses sinais aparecerão numa fase já adiantada da doença. Se o dentista fi zer um screening em seu consultório, por meio da aferição da glicemia aleatória em ponta de dedo, ele poderá detectar pessoas com risco de exibirem diabetes tipo 2, a mais comum, e poderá encaminhá-las ao endocrinologista, para estabelecer o diagnóstico fi nal. Desta forma conseguiremos, à semelhança das campanhas, diagnosticar a diabetes em estágios mais iniciais.

 

3. Quais os cuidados com relação à anestesia são necessários ter ao tratar pacientes com diabetes mellitus? Não existe evidência científi ca que demonstre contraindicação de algum tipo de anestésico local de uso odontológico em pessoas com diabetes.

 

4. O paciente diabético pode ser submetido a uma cirurgia para colocação de implantes dentais? Sim. Ele pode ser submetido à colocação de implantes e estudos têm mostrado que não existe maior incidência de falha na osteointegração ou complicações pelo fato do paciente ter diabetes.

 

5. De que forma a periodontite pode infl uenciar a diabetes como ela pode descompensar a diabetes? Estudos sugerem que a periodontite colabora com a hiperglicemia, difi cultando o controle metabólico da diabetes e que, no sentido inverso, existem evidências de que a diabetes aumenta a predisposição para a doença periodontal (gengivite e periodontite). A periodontite é uma infecção crônica, cuja etiologia está relacionada à presença de um biofi lme bacteriano aderido à superfície dental. Uma das teorias para explicar o efeito hiperglicemiante da periodontite é a de que essas bactérias e suas toxinas entram na corrente sanguínea por meio do epitélio da bolsa periodontal durante a mastigação ou escovação dental, e elevam os níveis de citocinas infl amatórias (TNF-?, IL-6, prote- ína C reativa e fi brinogênio) os quais estão relacionados à resistência à insulina.

 

6. Qual a relação do diabetes com as doenças gengivais? Várias são as hipóteses para explicar o aumento da susceptibilidade da diabetes à gengivite e à periodontite, especialmente naquelas pessoas com diabetes descompensada por períodos longos: 1)a hiperglicemia aumentaria a concentração de glicose no fl uido crevicular, o que altera o ambiente local da bolsa periodontal e torna a composição da placa bacteriana mais agressiva; 2) parte das pessoas com diabetes exibem diminuição das funções dos neutrófi los, que são células importantes no combate a infecções bacterianas; e 3) alguns estudos em animais demonstraram que na diabetes tipo 1 ocorre uma alta produção do fator de necrose tumoral (TNF-alfa), o que interferiria na reparação do tecido ósseo.

 

7. Então todos os pacientes diabéticos podem ser submetidos a tratamentos periodontais, como raspagens? Sim, eles devem ser submetidos a tratamentos periodontais, como raspagens, por exemplo. Nesse caso, o controle da infecção periodontal pode melhorar o controle glicêmico do diabético. Isto pode ser explicado pelo fato do tratamento periodontal resultar na diminuição dos níveis de mediadores infl amatórios no sangue, que estão relacionados à resistência à insulina.

 

Fonte: Colgate